A Bia tem 22 anos, é jornalista em início de carreira na Globo, morou a vida inteira em Botafogo. Conta a história dela numa tarde de abril, tomando açaí na Rua Voluntários da Pátria.
O match do sábado de chuva
"Era abril do ano passado, sabado à tarde, chuva feia que não deixava sair. Eu tava deitada no sofá vendo série boba, abri a app por tédio. O João apareceu no segundo ou terceiro perfil."
Três fotos: uma dele numa trilha, outra com um cachorro vira-lata, a terceira numa mesa de bar com amigos. "Nada de especial, mas nada performático. Gostei."
Ele mandou primeiro: "vi que você tá em Botafogo, dica de café aberto agora na chuva?" Ela gostou do direto. Respondeu indicando o Fragment. Ele agradeceu e perguntou se podia levar ela junto. Ela topou.
O primeiro encontro improvisado
"Uma hora depois, a gente tava dividindo um café no Fragment, debaixo de chuva. Ele tava de moletom molhado e cabelo pingando, eu tinha vindo de calça de moletom de casa. Zero produção. Foi bom por isso."
Ficaram três horas. Conversa pulou de jornalismo (ele é cinegrafista) pra filmes brasileiros, pra família, pra planos de carreira. Nada romântico na superfície, mas ela sentiu algo. Saíram no fim da tarde, abraçaram na porta, sem beijo.
O segundo encontro (o que quase matou tudo)
Três dias depois, ele chamou pra um boteco na Voluntários. Ela foi. Ele apareceu 40 minutos atrasado, sem aviso prévio, com cara de ressaca.
"Eu quase fui embora. Tipo, literalmente me levantei e peguei a bolsa. Ele chegou naquele momento e pediu desculpa sincera, explicou que tinha dormido fora na casa de um amigo e esqueceu de acertar o despertador. Não mentiu. Eu dei uma chance."
Ficaram no boteco até meia-noite. Ela foi pra casa pensando "ou isso vai dar muito certo ou muito errado".
Os primeiros dois meses (os normais)
Próximas oito semanas foram tranquilas. Ela apresentou ele às amigas do trabalho, ele apresentou ela a dois amigos do colegial. Saíam duas vezes por semana, sem pressão, sem rótulo ainda.
"Tinha momento que eu achava que a gente ia virar sério e momento que eu achava que ele ia desaparecer. Mas sempre voltava, sempre com proposta concreta, nunca 'a gente se fala'."
A conversa do terceiro mês
Num domingo, na praia de Botafogo, ele puxou: "e aí, a gente tá namorando ou vai continuar assim?"
Ela riu. "Eu queria que tivesse sido eu a perguntar, mas ele foi mais rápido."
Aceitou. Fizeram hard launch dois dias depois, foto dos dois no Largo do Machado. A galera reagiu bem, sem surpresa — já tinham visto soft launches há semanas.
A ideia da primeira viagem
Foi ideia dela, no quarto mês. "Eu tava querendo sair do Rio por uma semana e falei 'vamos pra Trancoso'. Achei que ele ia falar 'cara, muito cedo pra viagem'. Ele falou 'bora'. E eu fiquei assustada com a facilidade."
Alugaram uma casa simples em Trancoso por cinco dias, 3200 reais divididos no cartão dele. Saíram de carro num sábado de madrugada, 18 horas de estrada, parando em três postos e uma pousada em Porto Seguro.
A primeira viagem (e o que ela quase destruiu)
"Primeiro dia foi lindo. Praia, peixe, cerveja no fim da tarde no Quadrado. Segundo dia a gente brigou por causa de música no carro — parece ridículo, mas foi a primeira briga real."
O João não gostou dela tomar decisão sem consultar (qual restaurante ir à noite). Ela não gostou da reação desproporcional dele. Discussão durou duas horas, terminou com ambos sentados em pontas diferentes da varanda.
"Foi aí que eu descobri que não dava pra escapar. Numa viagem, você não tem amiga pra ligar, não tem rotina pra se esconder. Você tem que resolver na hora."
Como resolveram
Ela foi até ele. Falou primeiro. "Quero entender como você reagiu. Não pra te acusar, pra entender."
Ele explicou que tinha crescido com pai controlador, tinha gatilho antigo com decisões tomadas por cima dele. Ela ouviu sem defender. Ele pediu desculpa pelo tom. Ela pediu desculpa por não ter checado antes.
"Foi a primeira vez que eu vi ele vulnerável. Aí eu soube que tinha algo real."
Os três dias finais em Trancoso
Foram melhores do que os dois primeiros. Passavam metade do dia fora, metade em casa sem precisar conversar. Descobriram que nenhum dos dois precisa de entretenimento constante. Descobriram que dormir juntos sem sexo é tão bom quanto com sexo.
Voltaram no sábado seguinte, exaustos, queimados de sol, apaixonados.
Onde estão agora, nove meses depois do Trancoso
Continuam juntos. Ela ainda mora com os pais em Botafogo, ele em Laranjeiras. Tão começando a falar em morar juntos daqui a um ano. Fizeram mais duas viagens curtas: Búzios num feriado e um fim de semana em Floripa.
"Nenhuma foi tão importante quanto Trancoso. Porque Trancoso foi a primeira vez que a gente descobriu que a gente ia aguentar briga em contexto real."
O conselho dela pra quem quer viajar cedo com match novo
"Não faça viagem grande antes do terceiro mês. Não porque a pessoa vai mudar, mas porque você ainda tá na fase performática. Primeira viagem tem que acontecer depois que vocês já sabem como cada um briga, mas não sabem como cada um viaja. É a última camada antes de morar junto."
"E escolhe destino meio devagar. Viagem de aventura intensa destrói cedo demais. Praia com rotina leve, casa alugada, carro próprio, cinco a sete dias. Se sobreviver a isso, sobrevive ao resto."