Passei as últimas semanas a falar com seis pessoas à volta dos meus 23 anos sobre relações abertas. Quatro em Lisboa, duas no Porto. Quatro tinham tentado, duas estavam curiosas e nunca tentaram.
O que ouvi é mais interessante do que o que se lê em artigo de revista. Aqui vai o resumo sem edulcorar.
O mito número um: "ou és aberto ou és monogâmico"
A conversa real mostra que ninguém na Gen Z pensa assim. A maior parte das pessoas que entrevistei descreveu as suas relações em tons, não em binários.
Rita, 23, Benfica: "Eu e o meu namorado somos monogâmicos, mas acordámos que podemos beijar alguém numa noite fora se a outra pessoa for avisada. Não sei se isso é relação aberta ou não, mas funciona para nós."
A chamada "relação aberta" é um espectro, não uma categoria.
O mito número dois: "funciona para todos"
Três dos quatro que tinham tentado disseram que terminou mal. Um disse que mudou completamente a forma como ele entende relações, mas não continuaria neste formato.
Miguel, 24, Porto Foz Velha: "Tentámos durante quatro meses. No papel parecia maduro, na prática eu ficava acordado a ver o Google Maps dela a mexer em localizações que eu não reconhecia. Tu achas que és evoluído e depois descobres que és um ciumento vulgar."
O mito número três: "é só sobre sexo"
Nenhum dos seis descreveu a motivação como "queria ter sexo com mais gente". A maior parte falou em curiosidade, medo de perder coisas, desejo de não se comprometerem a 100 porcento antes dos 30.
Inês, 25, Alvalade: "Não era pelo sexo com terceiros. Era por eu não querer fechar opções enquanto ainda não sabia quem ia ser aos 30. Percebes?"
As três versões mais comuns em 2026
- A relação semi-aberta: exclusividade emocional com pequenas janelas físicas (beijos fora, encontros sem sexo, flirt declarado). Mais comum e mais estável na faixa 22-25.
- A relação aberta total: ambos podem ter outras ligações, normalmente com comunicação constante e algumas regras (tipo não dormir em casa de terceiros).
- A relação poli: quando ambos têm mais do que uma relação séria em paralelo. Rara na faixa etária, mais comum acima dos 28.
As razões genuínas que ouvi
- "Não queria fechar tudo aos 22 e descobrir arrependimentos aos 30."
- "Achei que se o amor fosse real, a gente aguentava o formato."
- "Estávamos os dois a sair de monogâmicas que correram mal."
- "Queríamos fazer diferente do que os nossos pais."
- "Estava genuinamente curiosa e ele também."
Nenhum dos motivos é errado. Mas nenhum, por si só, garante sucesso.
As armadilhas que todos mencionaram
- A inveja retroativa. Tu aceitas no momento, mas uma semana depois fica-te uma pedra no estômago ao pensar que ela estava com outro ao mesmo tempo em que tu estavas a ver a tua série.
- A comparação silenciosa. Começas a perguntar "ela foi melhor do que eu?", "ele é mais bonito do que eu?" A espiral é cruel.
- O desequilíbrio energético. Um dos dois aproveita mais do que o outro. O outro fica a contar trocas.
- A dissolução da rotina. Sexta à noite deixa de ser "vocês os dois" por default. De repente não há default nenhum.
As condições em que funcionou, nos raros casos
O único dos seis que continua em relação aberta com sucesso (três anos) resumiu assim:
"A gente tinha dois anos de monogâmia antes, com confiança real. A ideia veio dos dois, simultaneamente, não por sugestão de um. Temos regras muito explícitas, reavaliadas a cada seis meses. E não escondemos nada, mesmo quando é desconfortável. Não funciona se omitires."
A conclusão dela: "é mais trabalho, não menos. Quem faz isto para 'ter menos compromisso', vai falhar."
As conversas obrigatórias antes
- O que é sexo para nós? Beijo conta? Chat picante conta?
- Queremos saber quando acontece? Queremos detalhes ou só a confirmação?
- Há pessoas off-limits? Amigos do grupo comum? Ex? Colegas?
- Sexo sempre com proteção, sempre, sem negociação?
- Se um de nós se apaixona por terceiro, o que fazemos?
- A cada quanto tempo reavaliamos esta estrutura?
Se qualquer destas perguntas gera pânico, ainda não é a altura.
O sinal mais claro de que não vai funcionar
Se um dos dois aceita "porque o outro quer", está condenado. Dos quatro que tentaram, três disseram que um dos dois tinha aceitado em desejo menor e isso destruiu tudo.
Pressão ligada a relação aberta é red flag enorme. Se sentes que tens de aceitar para a pessoa ficar contigo, vai embora — nem a relação aberta nem a monogâmica com ela vão correr bem.
O paradoxo dos 23
Aos 23 temos energia, curiosidade, menos baggage do que aos 30. Mas também temos menos ferramentas emocionais para gerir complexidade. É tentador experimentar e perigoso por isso mesmo.
Não há resposta correta. Há consciência. Se vais tentar, vai de olhos abertos e com um plano de saída sem drama se correr mal.
Experimenta só uma conversa
Se estás numa relação e o tema vos passou pela cabeça, marca uma noite de sexta, com vinho em casa, sem distrações. Pergunta apenas: "se fôssemos honestos, o que te atrairia na ideia, e o que te assustaria?" Sem decisões. Só a conversa. Ouvir é metade do trabalho.